O mercado deu seu recado. Agora a conta chega ao crédito
Com a Bolsa em queda e os juros longos em alta, o efeito mais duradouro da reprecificação eleitoral não está na tela do home broker, mas no custo do crédito para as empresas brasileiras
A eleição terminou no domingo. A precificação do risco, não. E o efeito menos discutido do tombo desta segunda não está na Bolsa: está no custo de financiar empresas brasileiras nos próximos quatro anos.
O Brasil amanheceu nesta segunda-feira (26) com um presidente reeleito e um pregão que não abria. Luiz Inácio Lula da Silva venceu o segundo turno com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Nos primeiros minutos de negociação, o Ibovespa caiu mais de 10% e a B3 acionou o circuit breaker, o mecanismo que suspende os negócios por meia hora. Era a primeira vez desde março de 2020.
O resto do dia não aliviou muito. O índice chegou a recuar mais de 17% em relação ao fechamento de sexta-feira, quando estava em 205.082 pontos; por volta das 14h30 ainda perdia cerca de 14%, perto dos 176 mil pontos. O dólar, que havia encerrado a semana a R$ 4,99, tocou R$ 5,60 na máxima e operava acima de R$ 5,40 à tarde. Na curva de juros, o contrato de DI para janeiro de 2031 abriu em 14,46% ao ano e chegou a 15,94% na máxima, segundo os dados de pregão. O Tesouro Nacional cancelou os leilões da semana e voltou ao mercado para recomprar títulos: cerca de R$ 7,1 bilhões em prefixados pela manhã, e um segundo leilão, de NTN-B, com teto estimado em R$ 14,3 bilhões, à tarde.
À primeira vista, é um plebiscito do mercado sobre o resultado eleitoral. Essa leitura é verdadeira, mas incompleta. O mercado não precifica governos. Precifica expectativas, riscos e, principalmente, a capacidade de um país sustentar seu crescimento. A pergunta útil, portanto, não é quem venceu. É quais serão as condições para investir, financiar empresas e gerar riqueza no Brasil até 2030.
Mercados funcionam como mecanismos de antecipação. O preço de uma ação, a cotação de uma moeda ou a taxa de um título público refletem apostas sobre o futuro, não um retrato do presente. Por isso uma eleição move preços antes de qualquer decisão concreta de política econômica: o resultado altera as probabilidades que os investidores atribuem a cada cenário de dívida pública, disciplina fiscal, inflação, juros e crescimento.
Quando essas probabilidades se deterioram, o prêmio de risco exigido para investir no país sobe. E ele sobe por três canais ao mesmo tempo. Na Bolsa, uma taxa de desconto maior reduz o valor presente dos lucros futuros das empresas. No câmbio, a busca por proteção pressiona o real. Na renda fixa, a exigência de remuneração maior eleva as taxas dos títulos públicos e derruba o preço dos papéis já emitidos. São três movimentos distintos, ligados por uma única variável: confiança.
Aqui entra a ressalva que separa análise de pânico. Uma parte relevante do tombo desta segunda não é risco fiscal novo. É o desmonte de uma aposta.
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