Estudo aponta que 89 de 91 planos climáticos ignoram risco de colapso de correntes oceânicas
Pesquisa na Nature Sustainability revela que apenas duas nações mencionam a AMOC em suas estratégias, sem medidas concretas de adaptação.

Omissão global em planos de adaptação
Um sistema de correntes oceânicas essencial para regular o clima da Terra pode sofrer um enfraquecimento significativo até o fim do século, mas o risco ainda é ignorado pela maioria dos governos em seus planos de adaptação climática. De 91 planos nacionais apresentados à Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, apenas dois mencionam a possibilidade de colapso dessas correntes — e nenhum deles prevê medidas concretas para enfrentar o cenário, segundo artigo publicado na revista Nature Sustainability.
Mecânica da Circulação Meridional
O sistema em questão é a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico, conhecida pela sigla AMOC. Ela funciona como uma espécie de esteira transportadora oceânica: leva águas quentes da superfície em direção ao norte do Atlântico e devolve águas mais frias para o sul em camadas profundas. Esse movimento redistribui calor pelo planeta e influencia temperaturas e padrões de chuva em regiões muito distantes do oceano. Com o aquecimento global, a circulação está enfraquecendo e pode continuar a perder força ao longo deste século.
Projeções e cenários de risco
Os pesquisadores ressaltam, porém, que um colapso completo é considerado improvável antes de 2100. Um estudo recente citado pelos autores projetou redução de 50% na intensidade da AMOC até o fim do século em cenário intermediário de emissões. Uma redução acentuada da circulação poderia provocar mudanças importantes no clima de diferentes regiões. No norte da Europa, por exemplo, a diminuição do transporte de calor vindo dos trópicos poderia favorecer episódios de frio extremo durante o inverno. Simulações climáticas com a AMOC desligada indicaram a possibilidade de temperaturas de até -20 °C em Londres (Inglaterra).
Impactos em monções e segurança hídrica
Os efeitos também poderiam atingir regiões que dependem das chuvas de monção. Experimentos com modelos climáticos apontaram enfraquecimento médio de 29% das monções da África Ocidental e de 19% das monções de verão da Índia em cenários de interrupção da circulação. Essas alterações aumentariam os riscos para o abastecimento de água e a produção de alimentos em áreas dependentes dessas chuvas. Outros estudos mencionados no artigo apontam maior risco de secas severas em partes da América Central, da África Ocidental e da região amazônica.

